{"id":629,"date":"2018-03-23T13:47:50","date_gmt":"2018-03-23T13:47:50","guid":{"rendered":"http:\/\/mritecnologia.com.br\/?p=629"},"modified":"2021-05-19T12:57:09","modified_gmt":"2021-05-19T12:57:09","slug":"entenda-o-escandalo-do-facebook-que-comprometeu-dados-de-mais-de-50-milhoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mritecnologia.com.br\/?p=629","title":{"rendered":"Entenda o esc\u00e2ndalo do Facebook que comprometeu dados de mais de 50 milh\u00f5es"},"content":{"rendered":"<div class=\"featured\">\n<div class=\"foto\">\n<div class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cache.olhardigital.com.br\/uploads\/acervo_imagens\/2018\/03\/20180322175847_660_420.jpg\"><\/p>\n<div class=\"seedtag-gohan seedtag-adunit\">&nbsp;<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Voc\u00ea deve ter ouvido falar recentemente do \u00faltimo &#8220;esc\u00e2ndalo&#8221; do Facebook. <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/news\/2018\/mar\/17\/cambridge-analytica-facebook-influence-us-election\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Segundo <\/a>uma s\u00e9rie de reportagens do Guardian, uma empresa &#8211; chamada <strong>Cambridge Analytica<\/strong> &#8211; coletou os dados de mais de 50 milh\u00f5es de usu\u00e1rios da rede social. E, de posse desses dados, fez campanhas pol\u00edticas que podem ter tido influ\u00eancia decisiva em diversos acontecimentos globais, como a sa\u00edda do Reino Unido da Uni\u00e3o Europeia e a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump para a presid\u00eancia dos Estados Unidos, embora o seu impacto seja dif\u00edcil de ser medido.<\/p>\n<p>Boa parte das informa\u00e7\u00f5es sobre o caso v\u00eam de <strong>Christopher Wylie<\/strong>, um funcion\u00e1rio da Cambridge Analytica que viu o poder da arma pol\u00edtica que havia ajudado a criar e <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/news\/2018\/mar\/17\/data-war-whistleblower-christopher-wylie-faceook-nix-bannon-trump\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">decidiu falar sobre ela<\/a> ao jornal. O curioso \u00e9 que os dois lados da hist\u00f3ria &#8211; o Facebook e a empresa &#8211; insistem que \u00e9 o outro que est\u00e1 errado. Segundo o Facebook, a Cambridge Analytica usou de maneira indevida os dados de seus usu\u00e1rios.<\/p>\n<div class=\"clearfix links-relacionados\"><strong>Veja tamb\u00e9m:<\/strong><a href=\"https:\/\/olhardigital.com.br\/noticia\/ministerio-publico-investiga-se-escandalo-do-facebook-atingiu-o-brasil\/74747\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Minist\u00e9rio P\u00fablico investiga se esc\u00e2ndalo do Facebook atingiu o Brasil<\/a><a href=\"https:\/\/olhardigital.com.br\/noticia\/mozilla-suspende-publicidade-no-facebook-apos-escandalo-da-cambridge-analytica\/74738\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mozilla suspende publicidade no Facebook ap\u00f3s esc\u00e2ndalo da Cambridge Analytica<\/a><a href=\"https:\/\/olhardigital.com.br\/noticia\/concurso-paga-us-100-mil-por-ideias-para-um-substituto-do-facebook\/74730\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Concurso paga US$ 100 mil por ideias para um substituto do Facebook<\/a><a href=\"https:\/\/olhardigital.com.br\/noticia\/cofundador-do-whatsapp-diz-que-usuarios-deveriam-deletar-o-facebook\/74709\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cofundador do WhatsApp diz que usu\u00e1rios deveriam deletar o Facebook<\/a><a href=\"https:\/\/olhardigital.com.br\/dicas_e_tutoriais\/noticia\/como-parar-de-compartilhar-seus-dados-com-a-plataforma-do-facebook\/74708\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Como parar de compartilhar seus dados com a plataforma do Facebook<\/a><\/div>\n<p>Mas a empresa, por sua vez, diz que o Facebook sabia o que estava sendo feito e n\u00e3o tomou praticamente nenhuma atitude para impedi-los. A partir disso, eles teriam determinado que n\u00e3o havia nada de errado e seguiram adiante, coletando ainda mais dados. O resultado disso pode ser visto em uma s\u00e9rie de situa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas no mundo todo.<\/p>\n<div class=\"pub-banner pub-texto\">\n<div class=\"player_dynad_tv\">\n<div id=\"_dynad_c_I5550001923_15218126706201591995272\"><iframe loading=\"lazy\" id=\"IF5550001923_15218126706201591995272\" src=\"https:\/\/s.dynad.net\/stack\/eF7DkcrK-Tpjt1hjwr4I4xO529XbpE2i67M0rSEhlvPDVKbQ_tcj7XAQPsWhT1lh.html\" name=\"I5550001923_15218126706201591995272\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"No\" data-mce-fragment=\"1\" align=\"top\" width=\"100%\" height=\"0\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O caso, de qualquer maneira, \u00e9 extremamente grave e merece uma explica\u00e7\u00e3o mais detalhada. A resposta oficial do Facebook a ele &#8211; que ainda n\u00e3o veio &#8211; pode selar o destino da empresa. E independente dela, o caso deve mudar a forma como as redes sociais tratam os dados de seus usu\u00e1rios, e refor\u00e7a a quest\u00e3o: tome muito cuidado com o que voc\u00ea consome e compartilha na internet, porque aquele teste inocente que voc\u00ea faz no Facebook pode alimentar a campanha pol\u00edtica de algum candidato que voc\u00ea despreza, independentemente de sua posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>O come\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>Wylie, atualmente um jovem de 28 anos, aprendeu sozinho a programar e estudou direito na London School of Economics, na Inglaterra. Embora ele originalmente estivesse interessado em pesquisar maneiras de prever as tend\u00eancias da moda, ele acabou indo trabalhar em pol\u00edtica. Empregado por partidos, ele tentava entender como eles poderiam atrair mais eleitores usando todo tipo de informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nessa linha de pesquisa, ele come\u00e7ou a se interessar pela possibilidade de prever tend\u00eancias pol\u00edticas com base em tra\u00e7os de personalidade. Se uma pessoa fizesse um teste de personalidade do Facebook, por exemplo, um partido pol\u00edtico seria capaz de decidir, com base nos resultados dela, se ela poderia se tornar uma eleitora do partido. Era uma ideia que, se comprovada, poderia valer muito para os partidos.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que Wylie foi abordado por <strong>Alexander Nix<\/strong>, o CEO de uma empresa chamada SCL Elections que pretendia fazer exatamente isso. A empresa era parte do SCL Group, que realizava trabalhos para os departamentos de defesa dos EUA e do Reino Unido, entre outros. A \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o dela era &#8220;opera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas&#8221;, ou &#8220;psyops&#8221;, em ingl\u00eas: a t\u00e9cnica de manipular a opini\u00e3o das pessoas por meio de &#8220;domina\u00e7\u00e3o informacional&#8221;: uma mistura de rumores, desinforma\u00e7\u00e3o e not\u00edcias falsas.&nbsp;<\/p>\n<p>Nix contratou Wylie como diretor de pesquisa do grupo. Nesse cargo, Wylie conheceu <strong>Steve Bannon<\/strong>, o editor do site de extrema-direita Breitbart (e chefe de estrat\u00e9gia da campanha de Donald Trump), que se interessou pela sua \u00e1rea de pesquisa. Bannon apresentou Wylie a <strong>Robert Mercer<\/strong>, um bilion\u00e1rio CEO da Renaissance Technologies &#8211; um fundo de investimentos voltado para financiar a agenda pol\u00edtica da direita.<\/p>\n<p>E Mercer comprou a ideia de Wylie, literalmente: ele investiu milh\u00f5es de d\u00f3lares para que Nix e Wylie fundassem uma empresa dedicada a explorar a possibilidade de usar dados do Facebook para manipular a opini\u00e3o pol\u00edtica dos usu\u00e1rios. Essa empresa viria a ser a Cambridge Analytica. Mas para chegar a esse ponto, Wylie e Nix precisavam de dados com os quais trabalhar.<\/p>\n<p><strong>Coleta massiva<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que entra na hist\u00f3ria o pesquisador Aleksandr Kogan. Kogan criou um teste de personalidade que, segundo o Guardian, foi essencialmente copiado de outro teste que j\u00e1 havia sido usado para estudar a liga\u00e7\u00e3o entre personalidade e opini\u00e3o pol\u00edtica. Ele ent\u00e3o ofereceu esse teste \u00e0 Cambridge Analytica e usou o Facebook para compartilh\u00e1-lo, a fim de fazer a coleta de dados para a empresa.<\/p>\n<p>No total, cerca de 320 mil pessoas fizeram o teste, chamado de &#8220;thisisyourdigitallife&#8221;, ao longo de 2014. Para isso, era necess\u00e1rio dar \u00e0 empresa acesso aos dados do seu perfil &#8211; algo que poucas pessoas notavam quando clicavam para fazer o teste. E o que menos gente ainda percebeu era que, ao autorizar o teste a acessar seus dados, voc\u00ea tamb\u00e9m o autorizava a acessar os dados de seus amigos.<\/p>\n<p>Dessa forma, cada pessoa que fez o teste entregou, al\u00e9m dos pr\u00f3prios dados, as informa\u00e7\u00f5es pessoais de 160 amigos, em m\u00e9dia. Esses dados incluiam coisas como atualiza\u00e7\u00f5es de status, fotos , curtidas em posts e p\u00e1ginas, participa\u00e7\u00f5es em grupos e, em alguns casos, at\u00e9 mesmo mensagens privadas, segundo Wylie.<\/p>\n<p>Por esse meio, em quest\u00e3o de semanas a empresa conseguiu ter acesso a milh\u00f5es de perfis do Facebook. Segundo Wylie, a rede social sabia que havia algo errado, mas como Kogan alegou que estava extraindo os dados para fins acad\u00eamicos, a empresa n\u00e3o fez nada. &#8220;O Facebook n\u00e3o fez o menor esfor\u00e7o para recuperar os dados&#8221;, diz Wylie.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Manipula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Esses dados foram usados para criar os modelos e algoritmos usados pela Cambridge Analytica para determinar como fazer para manipular as pessoas. De posse deles, a empresa conseguia saber a que tipo de postagem cada pessoa estava suscet\u00edvel &#8211; n\u00e3o s\u00f3 v\u00eddeos, textos ou imagens, mas tamb\u00e9m o conte\u00fado, o tom e o estilo de cada postagem. Tamb\u00e9m era poss\u00edvel saber quantas vezes era necess\u00e1rio expor essas pessoas a esse tipo de conte\u00fado para influenciar sua opini\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n<p>Uma vez que a empresa tinha esse conhecimento, ela ent\u00e3o produzia o conte\u00fado necess\u00e1rio para produzir esse efeito. Segundo Wylie, a empresa tinha uma equipe inteira de redatores, designers, cinegrafistas e editores capazes de produzir basicamente qualquer conte\u00fado que tivesse o potencial de influenciar a opini\u00e3o dos perfis do Facebook aos quais ela tinha acesso. Esse conte\u00fado poderia ser desde um texto opinativo at\u00e9&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Depois desse conte\u00fado ser criado, ele era enviado a uma equipe de targeting. O objetivo dessa equipe era fazer com que cada um desses conte\u00fados atingisse o maior n\u00famero poss\u00edvel de pessoas suscet\u00edveis a ele, por quaisquer meios. Poderiam ser posts patrocinados no Facebook, novos blogs ou sites &#8211; a equipe garantia que as pessoas-alvo seriam expostas \u00e0quele conte\u00fado de maneira suficiente para mudar a opini\u00e3o dela para qualquer coisa que os clientes da Cambridge Analytica quisessem. A empresa buscava especialmente aqueles indecisos, que se mostravam capazes de alternar sua opini\u00e3o sobre como votar no caso do Brexit ou das elei\u00e7\u00f5es americanas.<\/p>\n<p>A sa\u00edda do Reino Unido da Uni\u00e3o Europeia e a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump para a presid\u00eancia dos Estados Unidos foram algumas das campanhas de sucesso em que a empresa usou o que Wylie chamou de sua &#8220;arma de guerra psicol\u00f3gica&#8221;. Com o investimento de Mercer, as duas campanhas pol\u00edticas acabaram tendo grande sucesso.<\/p>\n<p><strong>Descoberta<\/strong><\/p>\n<p>Depois da elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump e da descoberta de que <a href=\"https:\/\/olhardigital.com.br\/fique_seguro\/noticia\/fbi-nsa-e-cia-confirmam-que-russos-hackearam-eleicoes-dos-eua\/65171\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">agentes ligados ao governo russo<\/a> haviam usado as redes sociais como ferramenta para influenciar os votos dos cidad\u00e3os americanos, ficou evidente que havia algo errado na maneira como o Facebook estava tratando as propagandas pol\u00edticas.&nbsp;<\/p>\n<p>Conforme o congresso investigou as campanhas, o papel do Facebook como ferramenta de manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ficou cada vez mais claro. E nesse ponto surgiu o nome da Cambridge Analytica. Chamados para depor em um inqu\u00e9rito parlamentar, tanto Alexander Nix (o CEO da empresa) quanto um representate do Facebook disseram que a Cambridge Analytica n\u00e3o possu\u00eda, nem tinha usado, dados dos usu\u00e1rios da rede social, <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2018\/03\/17\/us\/politics\/cambridge-analytica-trump-campaign.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">segundo <\/a>o New York Times.&nbsp;<\/p>\n<p>Mas Wylie tinha provas de que a empresa havia, sim, usado esses dados. E de que o Facebook sabia disso desde 2015, e embora tivesse pedido que os dados fossem deletados, n\u00e3o conferiu se isso foi realmente feito. Ele apresentou as provas &#8211; que inclu\u00edam c\u00f3pias dos dados obtidos pela empresa e documentos enviados pelos advogados do Facebook &#8211; \u00e0 imprensa, que ent\u00e3o tratou o caso como um enorme vazamento de dados da rede social.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Resposta<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 mais complexa do que um vazamento de dados. Nenhum servidor foi hackeado e nenhuma senha foi comprometida. Kogan alega que durante todo o tempo em que ele coletou e armazenou os dados dos usu\u00e1rios da rede, <a href=\"https:\/\/olhardigital.com.br\/noticia\/-achava-que-era-normal-diz-pesquisador-que-coletou-dados-do-facebook\/74712\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ele n\u00e3o achava que estivesse fazendo qualquer coisa errada<\/a>. Afinal, a empresa tinha como saber que essa coleta massiva estava ocorrendo, e tinha como entrar em contato pedindo a suspens\u00e3o da coleta &#8211; mas n\u00e3o o fez.<\/p>\n<p>O Facebook, por sua vez, diz que Kogan \u00e9 o culpado. Quando Zuckerberg <a href=\"https:\/\/olhardigital.com.br\/noticia\/zuckerberg-quebra-o-silencio-sobre-escandalo-de-privacidade-do-facebook\/74729\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">finalmente se pronunciou<\/a> sobre o caso ontem, ele ressaltou que desde 2014 proibiu que aplicativos de sua plataforma coletassem os dados de amigos das pessoas que os utilizam. &#8220;O que houve foi uma quebra de confian\u00e7a entre Kogan, Cambridge Analytica e o Facebook&#8221;, disse.&nbsp;<\/p>\n<p>Em seu pronunciamento, Zuckerberg diz que a rede social tomou medidas para garantir que problemas desse tipo n\u00e3o voltem a ocorrer. Ele expulsou a Cambridge Analytica de todas as plataformas do Facebook e prometeu que a rede vai investigar todos os apps que j\u00e1 tiveram acesso a esse volume de dados e fazer uma auditoria completa sobre eles, e vai reduzir os dados aos quais os desenvolvedores de apps t\u00eam acesso.<\/p>\n<p>Pode ser que essas promessas deem resultados, e a rede social realmente comece a tratar com mais considera\u00e7\u00e3o as informa\u00e7\u00f5es pessoais de seus usu\u00e1rios. Mas se a empresa n\u00e3o cumprisse nenhuma dessas promessas, n\u00e3o seria a primeira vez: no fim do ano passado, a empresa seguia permitindo a publica\u00e7\u00e3o de assuntos com discrimina\u00e7\u00e3o racial <a href=\"https:\/\/olhardigital.com.br\/noticia\/facebook-segue-permitindo-discriminacao-racial-em-anuncios-um-ano-apos-processo\/72502\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mesmo um ano ap\u00f3s ter sido avisada de que isso era ilegal (e de ter prometido mudar)<\/a>.&nbsp;<\/p>\n<p>Mas mesmo que as mudan\u00e7as prometidas pela rede social sejam feitas e deem resultados, o descuido da empresa com os dados de seus usu\u00e1rios j\u00e1 deu resultados suficientes. A elei\u00e7\u00e3o de Trump e a sa\u00edda do Reino Unido da Uni\u00e3o Europeia s\u00e3o eventos pol\u00edticos gigantescos e inesperados, que ter\u00e3o impactos materiais nas vidas de milh\u00f5es de pessoas no mundo todo. E n\u00e3o h\u00e1 nada que a rede social fa\u00e7a que possa desfazer esses eventos.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Voc\u00ea deve ter ouvido falar recentemente do \u00faltimo &#8220;esc\u00e2ndalo&#8221; do Facebook. Segundo uma s\u00e9rie de reportagens do Guardian, uma empresa &#8211; chamada Cambridge Analytica &#8211; coletou os dados de mais de 50 milh\u00f5es de usu\u00e1rios da rede social. E, de posse desses dados, fez campanhas pol\u00edticas que podem ter tido influ\u00eancia decisiva em diversos acontecimentos globais, como a sa\u00edda do Reino Unido da Uni\u00e3o Europeia e a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump para a presid\u00eancia dos Estados Unidos, embora o seu impacto seja dif\u00edcil de ser medido. Boa parte das informa\u00e7\u00f5es sobre o caso v\u00eam de Christopher Wylie, um funcion\u00e1rio da Cambridge Analytica que viu o poder da arma pol\u00edtica que havia ajudado a criar e decidiu falar sobre ela ao jornal. O curioso \u00e9 que os dois lados da hist\u00f3ria &#8211; o Facebook e a empresa &#8211; insistem que \u00e9 o outro que est\u00e1 errado. Segundo o Facebook, a Cambridge Analytica usou de maneira indevida os dados de seus usu\u00e1rios. Veja tamb\u00e9m:Minist\u00e9rio P\u00fablico investiga se esc\u00e2ndalo do Facebook atingiu o BrasilMozilla suspende publicidade no Facebook ap\u00f3s esc\u00e2ndalo da Cambridge AnalyticaConcurso paga US$ 100 mil por ideias para um substituto do FacebookCofundador do WhatsApp diz que usu\u00e1rios deveriam deletar o FacebookComo parar de compartilhar seus dados com a plataforma do Facebook Mas a empresa, por sua vez, diz que o Facebook sabia o que estava sendo feito e n\u00e3o tomou praticamente nenhuma atitude para impedi-los. A partir disso, eles teriam determinado que n\u00e3o havia nada de errado e seguiram adiante, coletando ainda mais dados. O resultado disso pode ser visto em uma s\u00e9rie de situa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas no mundo todo. O caso, de qualquer maneira, \u00e9 extremamente grave e merece uma explica\u00e7\u00e3o mais detalhada. A resposta oficial do Facebook a ele &#8211; que ainda n\u00e3o veio &#8211; pode selar o destino da empresa. E independente dela, o caso deve mudar a forma como as redes sociais tratam os dados de seus usu\u00e1rios, e refor\u00e7a a quest\u00e3o: tome muito cuidado com o que voc\u00ea consome e compartilha na internet, porque aquele teste inocente que voc\u00ea faz no Facebook pode alimentar a campanha pol\u00edtica de algum candidato que voc\u00ea despreza, independentemente de sua posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. O come\u00e7o Wylie, atualmente um jovem de 28 anos, aprendeu sozinho a programar e estudou direito na London School of Economics, na Inglaterra. Embora ele originalmente estivesse interessado em pesquisar maneiras de prever as tend\u00eancias da moda, ele acabou indo trabalhar em pol\u00edtica. Empregado por partidos, ele tentava entender como eles poderiam atrair mais eleitores usando todo tipo de informa\u00e7\u00f5es. Nessa linha de pesquisa, ele come\u00e7ou a se interessar pela possibilidade de prever tend\u00eancias pol\u00edticas com base em tra\u00e7os de personalidade. Se uma pessoa fizesse um teste de personalidade do Facebook, por exemplo, um partido pol\u00edtico seria capaz de decidir, com base nos resultados dela, se ela poderia se tornar uma eleitora do partido. Era uma ideia que, se comprovada, poderia valer muito para os partidos. Foi ent\u00e3o que Wylie foi abordado por Alexander Nix, o CEO de uma empresa chamada SCL Elections que pretendia fazer exatamente isso. A empresa era parte do SCL Group, que realizava trabalhos para os departamentos de defesa dos EUA e do Reino Unido, entre outros. A \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o dela era &#8220;opera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas&#8221;, ou &#8220;psyops&#8221;, em ingl\u00eas: a t\u00e9cnica de manipular a opini\u00e3o das pessoas por meio de &#8220;domina\u00e7\u00e3o informacional&#8221;: uma mistura de rumores, desinforma\u00e7\u00e3o e not\u00edcias falsas.&nbsp; Nix contratou Wylie como diretor de pesquisa do grupo. Nesse cargo, Wylie conheceu Steve Bannon, o editor do site de extrema-direita Breitbart (e chefe de estrat\u00e9gia da campanha de Donald Trump), que se interessou pela sua \u00e1rea de pesquisa. Bannon apresentou Wylie a Robert Mercer, um bilion\u00e1rio CEO da Renaissance Technologies &#8211; um fundo de investimentos voltado para financiar a agenda pol\u00edtica da direita. E Mercer comprou a ideia de Wylie, literalmente: ele investiu milh\u00f5es de d\u00f3lares para que Nix e Wylie fundassem uma empresa dedicada a explorar a possibilidade de usar dados do Facebook para manipular a opini\u00e3o pol\u00edtica dos usu\u00e1rios. Essa empresa viria a ser a Cambridge Analytica. Mas para chegar a esse ponto, Wylie e Nix precisavam de dados com os quais trabalhar. Coleta massiva \u00c9 nesse ponto que entra na hist\u00f3ria o pesquisador Aleksandr Kogan. Kogan criou um teste de personalidade que, segundo o Guardian, foi essencialmente copiado de outro teste que j\u00e1 havia sido usado para estudar a liga\u00e7\u00e3o entre personalidade e opini\u00e3o pol\u00edtica. Ele ent\u00e3o ofereceu esse teste \u00e0 Cambridge Analytica e usou o Facebook para compartilh\u00e1-lo, a fim de fazer a coleta de dados para a empresa. No total, cerca de 320 mil pessoas fizeram o teste, chamado de &#8220;thisisyourdigitallife&#8221;, ao longo de 2014. Para isso, era necess\u00e1rio dar \u00e0 empresa acesso aos dados do seu perfil &#8211; algo que poucas pessoas notavam quando clicavam para fazer o teste. E o que menos gente ainda percebeu era que, ao autorizar o teste a acessar seus dados, voc\u00ea tamb\u00e9m o autorizava a acessar os dados de seus amigos. Dessa forma, cada pessoa que fez o teste entregou, al\u00e9m dos pr\u00f3prios dados, as informa\u00e7\u00f5es pessoais de 160 amigos, em m\u00e9dia. Esses dados incluiam coisas como atualiza\u00e7\u00f5es de status, fotos , curtidas em posts e p\u00e1ginas, participa\u00e7\u00f5es em grupos e, em alguns casos, at\u00e9 mesmo mensagens privadas, segundo Wylie. Por esse meio, em quest\u00e3o de semanas a empresa conseguiu ter acesso a milh\u00f5es de perfis do Facebook. Segundo Wylie, a rede social sabia que havia algo errado, mas como Kogan alegou que estava extraindo os dados para fins acad\u00eamicos, a empresa n\u00e3o fez nada. &#8220;O Facebook n\u00e3o fez o menor esfor\u00e7o para recuperar os dados&#8221;, diz Wylie.&nbsp; Manipula\u00e7\u00e3o Esses dados foram usados para criar os modelos e algoritmos usados pela Cambridge Analytica para determinar como fazer para manipular as pessoas. De posse deles, a empresa conseguia saber a que tipo de postagem cada pessoa estava suscet\u00edvel &#8211; n\u00e3o s\u00f3 v\u00eddeos, textos ou imagens, mas tamb\u00e9m o conte\u00fado, o tom e o estilo de cada postagem. Tamb\u00e9m era poss\u00edvel saber quantas vezes era necess\u00e1rio expor essas pessoas a esse tipo de conte\u00fado para influenciar sua opini\u00e3o.&nbsp; Uma vez que a empresa tinha esse conhecimento, ela ent\u00e3o produzia o conte\u00fado necess\u00e1rio para produzir esse efeito. Segundo Wylie, a empresa tinha uma equipe inteira de redatores, designers, cinegrafistas e editores capazes de produzir basicamente qualquer conte\u00fado que tivesse o potencial de influenciar a opini\u00e3o dos perfis do Facebook aos quais ela tinha acesso. Esse conte\u00fado poderia ser desde um texto opinativo at\u00e9&nbsp;&nbsp; Depois desse conte\u00fado ser criado, ele era enviado a uma equipe de targeting. O objetivo dessa equipe era fazer com que cada um desses conte\u00fados atingisse o maior n\u00famero poss\u00edvel de pessoas suscet\u00edveis a ele, por quaisquer meios. Poderiam ser posts patrocinados no Facebook, novos blogs ou sites &#8211; a equipe garantia que as pessoas-alvo seriam expostas \u00e0quele conte\u00fado de maneira suficiente para mudar a opini\u00e3o dela para qualquer coisa que os clientes da Cambridge Analytica quisessem. A empresa buscava especialmente aqueles indecisos, que se mostravam capazes de alternar sua opini\u00e3o sobre como votar no caso do Brexit ou das elei\u00e7\u00f5es americanas. A sa\u00edda do Reino Unido da Uni\u00e3o Europeia e a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump para a presid\u00eancia dos Estados Unidos foram algumas das campanhas de sucesso em que a empresa usou o que Wylie chamou de sua &#8220;arma de guerra psicol\u00f3gica&#8221;. Com o investimento de Mercer, as duas campanhas pol\u00edticas acabaram tendo grande sucesso. Descoberta Depois da elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump e da descoberta de que agentes ligados ao governo russo haviam usado as redes sociais como ferramenta para influenciar os votos dos cidad\u00e3os americanos, ficou evidente que havia algo errado na maneira como o Facebook estava tratando as propagandas pol\u00edticas.&nbsp; Conforme o congresso investigou as campanhas, o papel do Facebook como ferramenta de manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ficou cada vez mais claro. E nesse ponto surgiu o nome da Cambridge Analytica. Chamados para depor em um inqu\u00e9rito parlamentar, tanto Alexander Nix (o CEO da empresa) quanto um representate do Facebook disseram que a Cambridge Analytica n\u00e3o possu\u00eda, nem tinha usado, dados dos usu\u00e1rios da rede social, segundo o New York Times.&nbsp; Mas Wylie tinha provas de que a empresa havia, sim, usado esses dados. E de que o Facebook sabia disso desde 2015, e embora tivesse pedido que os dados fossem deletados, n\u00e3o conferiu se isso foi realmente feito. Ele apresentou as provas &#8211; que inclu\u00edam c\u00f3pias dos dados obtidos pela empresa e documentos enviados pelos advogados do Facebook &#8211; \u00e0 imprensa, que ent\u00e3o tratou o caso como um enorme vazamento de dados da rede social.&nbsp; Resposta A quest\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 mais complexa do que um vazamento de dados. Nenhum servidor foi hackeado e nenhuma senha foi comprometida. Kogan alega que durante todo o tempo em que ele coletou e armazenou os dados dos usu\u00e1rios da rede, ele n\u00e3o achava que estivesse fazendo qualquer coisa errada. Afinal, a empresa tinha como saber que essa coleta massiva estava ocorrendo, e tinha como entrar em contato pedindo a suspens\u00e3o da coleta &#8211; mas n\u00e3o o fez. O Facebook, por sua vez, diz que Kogan \u00e9 o culpado. Quando Zuckerberg finalmente se pronunciou sobre o caso ontem, ele ressaltou que desde 2014 proibiu que aplicativos de sua plataforma coletassem os dados de amigos das pessoas que os utilizam. &#8220;O que houve foi uma quebra de confian\u00e7a entre Kogan, Cambridge Analytica e o Facebook&#8221;, disse.&nbsp; Em seu pronunciamento, Zuckerberg diz que a rede social tomou medidas para garantir que problemas desse tipo n\u00e3o voltem a ocorrer. Ele expulsou a Cambridge Analytica de todas as plataformas do Facebook e prometeu que a rede vai investigar todos os apps que j\u00e1 tiveram acesso a esse volume de dados e fazer uma auditoria completa sobre eles, e vai reduzir os dados aos quais os desenvolvedores de apps t\u00eam acesso. Pode ser que essas promessas deem resultados, e a rede social realmente comece a tratar com mais considera\u00e7\u00e3o as informa\u00e7\u00f5es pessoais de seus usu\u00e1rios. Mas se a empresa n\u00e3o cumprisse nenhuma dessas promessas, n\u00e3o seria a primeira vez: no fim do ano passado, a empresa seguia permitindo a publica\u00e7\u00e3o de assuntos com discrimina\u00e7\u00e3o racial mesmo um ano ap\u00f3s ter sido avisada de que isso era ilegal (e de ter prometido mudar).&nbsp; Mas mesmo que as mudan\u00e7as prometidas pela rede social sejam feitas e deem resultados, o descuido da empresa com os dados de seus usu\u00e1rios j\u00e1 deu resultados suficientes. A elei\u00e7\u00e3o de Trump e a sa\u00edda do Reino Unido da Uni\u00e3o Europeia s\u00e3o eventos pol\u00edticos gigantescos e inesperados, que ter\u00e3o impactos materiais nas vidas de milh\u00f5es de pessoas no mundo todo. E n\u00e3o h\u00e1 nada que a rede social fa\u00e7a que possa desfazer esses eventos.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_uag_custom_page_level_css":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-629","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"sweetheat-portfolio":false},"uagb_author_info":{"display_name":"MRI Tecnologia","author_link":"https:\/\/mritecnologia.com.br\/?author=1"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"&nbsp; Voc\u00ea deve ter ouvido falar recentemente do \u00faltimo &#8220;esc\u00e2ndalo&#8221; do Facebook. 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